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A cura

A cura

Nowmastê

Por Beto Pandiani*

Hoje percebo o que muitas pessoas estão sentindo neste país. Sinto a angústia, o pessimismo, o medo da violência, as poucas chances de mudança, a total ignorância por parte dos governantes e a corrupção. A pior sensação que se pode ter é ler todos os dias esta infinidade de notícias negativas e sentir que é impossível melhorar nossa vida. Pior ainda é não saber o que fazer para tentar mudar, avaliando que qualquer que seja o esforço, nada fará diferença.

Pois bem, podemos estar deixando passar uma excelente oportunidade, pois pode estar aí o nosso estímulo.

Comparo a nossa sociedade a um paciente. Este paciente esta doente e tem uma doença grave. Não existe a possibilidade de curar este paciente com remédios, pois isto vem sendo tentado há séculos. Curar é diferente de remediar.  

O principio do remédio sempre me desagradou por essência, pois nunca entendi a doença como um defeito, ou como algo que não estivesse relacionado ao meu comportamento. Para muitos a saúde é a ausência de doença. Não entendo assim.

Da mesma forma que não vejo a nossa doença coletiva desvinculada das nossas atitudes. Prefiro pensar na cura como um movimento de mudança de hábitos. Falo isso porque me identifico com o processo da cura pela homeopatia ou pelos florais. Os remédios alopatas têm uma eficiência e um papel que hoje não pode ser visto de maneira totalmente negativa, mas quando recorremos aos medicamentos alopatas é porque já deixamos o barco correr demais e eles acabam se tornando um mal necessário. O perigo é ficar a mercê da indústria da doença, que gera um consumo infinito de drogas que acabam gerando um ciclo vicioso de doenças gerada pelas mesmas.

O processo da cura pela homeopatia é interessante e eu já passei por esta experiência. No primeiro momento que você toma o medicamento homeopata, normalmente seu estado piora, causando uma reação do seu corpo e estimulando ele a combater determinado desequilíbrio. Ou seja, você estimula a buscar um poder dentro de você que se mobiliza para expulsar a “doença”.

Com este mesmo olhar vejo a nossa vida caótica em total desequilíbrio e nós confusos tentando entender a causa de tudo isso, procurando o tempo todo culpados, e buscando até muitas vezes se igualar àqueles que matam incentivando a vingança e a reatividade. Eu entendo que é muito difícil responder a atos de violência com uma atitude amorosa. Mas qual seria a nossa opção, já que temos visto ao longo da história onde a violência pode nos levar?

A minha esperança é que o que está passando com a nossa sociedade seja a mesma coisa que se passa com o paciente que tomou um remédio homeopata, e que esta situação caótica venha a ser o estímulo que a vida está nos proporcionando.

O caos é o convite na minha maneira de ver para se rever, pois como podemos querer mudar o que esta errado aí fora se não conseguimos mudar pequenas coisas que carregamos dentro de nós há tanto tempo.

Desconsideramos que o nosso planeta seja um ser vivo, esquecendo que ele é a manifestação de toda a vida existente por aqui. Os humanos que o habitam estão profundamente doentes e a postura mais comum de se observar é que quem está doente é quem está ao nosso lado, e nunca nos incluímos nesta lista. Esta negação retarda o nosso processo de cura, pois se não nos consideramos doentes, nunca vamos estar atentos e dispostos a mudar o que nos cabe.

Pergunto; quem é o escravo? Quem escraviza ou quem está escravizado? Quem está com medo? Quem aterroriza ou quem é aterrorizado? Quem é o corrupto? O corrupto ou quem consente? A resposta é a mesma em todos os casos. Ambos os lados. Estão aparentemente em lados diferentes, mas estão envolvidos na mesma questão.

Creio que não viemos para cá para ver frutificar o que vamos plantar. Difícil fazer esta afirmação, mas o que eu quero dizer é que não veremos frutificar as nossas sementes da maneira que esperamos. Isso nos causa uma tremenda angústia que é percebida como uma frustração e por isso nunca foi entendida. A morte do corpo nos dá a sensação de que não temos tempo para mudar, ou que é ineficaz o sentido de doação. Mas o verdadeiro benefício da doação não está no retorno daquilo que nos prontificamos a fazer e sim no ato de criar a consciência da cooperação. O grande ganho da doação, ou do plantio como citei acima é exatamente este. Aprender a amar, pois doar sem expectativas de algum retorno é um dos degraus da escala do amor.

O que acontece no mundo físico acontece no mundo espiritual, e como disse o Robert Happe: “As pessoas se tornam o que temem, as pessoas se tronam o que amam”.

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*Beto Pandiani é velejador, escritor e palestrante.

http://betopandiani-mar.tumblr.com/

[email protected]

 

Veja comentários (2)
  • Adorei o que escreveu. Andei pensando de forma muito parecida, até cheguei a escrever/esboçar, porque também sou colaboradora aqui no NOWMASTE. Mas Beto, se eu já achava que o que eu havia escrito
    (e não publicado, Graças!…rs) estava meio inconveniente, pelo menos a forma, o tom; ao ler o seu texto tive plena certeza porque você escreveu praticamente o mesmo conteúdo, mas com uma presença de espírito, uma paz , uma leveza, resumindo, doando claramamente este amor que você citou. Cheguei à uma conclusão, ou melhor, duas: a primeira é que você escreve com o coração. A segunda é que eu preciso velejar. Urgennnnte…rs

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