A cura que vem da ferida

Por Juliana Marinho Pires*

fogos-de-artificioRéveillon é uma data especial. É quando participamos daquele tradicional ritual de passagem para uma outra etapa, um novo tempo, quando acreditamos que todas as energias serão renovadas e um novo ânimo será injetado para darmos conta dos desafios. Estamos felizes e empolgados com a possibilidade dessa vida nova.

Eu tinha planejado ver os fogos pela primeira vez na praia de Copacabana. Poxa, se é assim tão prestigiado em todo mundo, tinha chegado a minha vez também de passar por essa experiência. Um amigo viria de outra cidade me encontrar só para isso. No dia 31 de dezembro fui à padaria. Já do lado de fora, comecei a passar mal por conta do calor. Lembrei que tinha doado sangue no dia anterior.

Já era tarde. Abri os olhos e estava no chão, cercada por várias pessoas que me observavam apreensivas. Teve um corte na cabeça. Sangue. Chamaram a ambulância. Mede pressão, põe colar cervical no pescoço, interrogatório dos bombeiros, tumulto e eu ali no centro de tudo, sem aviso prévio, sem preparação.

Nessa hora não pensei em nada, só me deixei levar. Uma mistura de “não tenho o que fazer” e “não posso fazer nada”. Tudo muito novo, principalmente me permitir ser cuidada por estranhos. Era preciso confiar na marra.

Logo depois lá estava eu levando pontos numa enfermaria de hospital. Vem o neurologista com o veredito: é preciso ficar 24 horas em observação. O quê? E meu réveillon pé na areia? Os sete pulinhos no mar? Não queria acreditar de jeito nenhum. Ia passar mesmo a noite da passagem do ano num hospital, numa enfermaria cheia de pessoas feridas como eu e funcionários de plantão. A sensação era de frustração máxima, impotência e raiva.

Aos poucos essa sensação foi dando espaço à resignação e à aceitação. Saí daquele lugar de vítima das circunstâncias, “ó pobre de mim”, para o de “isso também faz parte de mim agora, mesmo sendo ruim”. Percebi como me agarro a um planejamento rígido e tenho dificuldade de me desapegar das coisas mais simples, quem dirá de um ritual de passagem tão “especial”. Aí é que tá: era necessário me desapegar da “extraordinariedade” de tudo o tempo todo, a vida não é incrível 100% do tempo. É simples, intensa e às vezes ordinária mesmo. E ainda tem outra coisa: eu não sou invencível. Não adianta bancar a Mulher Maravilha horário integral porque até ela pode desfalecer, errar e dar uma de teimosa. Ali precisei de uma boa dose de humildade para compreender que estando naquela situação de vulnerabilidade total a roda também gira, o mundo acontece, eu continuo existindo. E existo para melhor, mais fortalecida e madura, menos coitada.

Olho ao meu redor. Acompanho a rotina da emergência. Médicos enérgicos e não menos atenciosos por isso, técnicos e enfermeiros cumprindo sua rotina de trabalho com respeito pelo outro. Descobri até um cargo que nem imaginava, o de maqueiro. É a pessoa que fica para lá e para cá levando as macas com pacientes. Um deles estava feliz da vida porque seu filho também estava no plantão daquela noite. Pai e filho trabalhando na virada era motivo de orgulho.

A entrada de cada paciente e acompanhantes novos provocava uma troca rápida de olhares de cumplicidade e de solidariedade. Senti que todos éramos um. Um na dor, um na compaixão, um no desejo de viver e ver viver. E meu amigo que veio de fora? Decidiu passar a meia noite comigo. “De que adianta estar naqueles fogos sem ninguém para dar um abraço?” – disse. Me senti acolhida e cuidada muito verdadeiramente, de uma forma que nunca tinha experienciado. Um amor espontâneo e sem alardes, sem importar o tempo e o espaço.

No final das contas, saí do hospital com um curativo na cabeça e um sentimento enorme de gratidão no coração. Apesar do susto, meu ano começou vigoroso, emocionante e cheio de aprendizados. Que siga sem expectativas e com os pés firmes no chão (literalmente)!

Juliana Marinho

Meu nome é Juliana Marinho Pires. Sou jornalista e publicitária formada pela UnB, já morei na Alemanha, Espanha e Chile estudando e trabalhando. Por aqui já fui, entre outras coisas, diretora e produtora de documentários, professora universitária, assessora de comunicação, tradutora e até atriz. Viajante e curiosa compulsiva, me empreendi recentemente em um período sabático pela Ásia e África. Ao voltar, mergulhei de cabeça no universo da espiritualidade e atualmente também sou leitora de aura, pratico tantra yoga e bioenergética, além de experimentar nos campos do xamanismo, do sagrado feminino e visitar comunidades de diferentes grupos e filosofias de vida.

2 Comentários

  1. Muito Bom Querida Juliana.Maravilhosa reflexão e crescimento.Lembrei-me de um principio budista chamado “transformação do veneno em remédio”.Parabénssss

  2. Ana Regina(Aninha) diz:

    Meus Parabéns ,você escreve muito bem.Gracas a Deus está ótima.Adoro sua família.

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