A ciência explica porque entoar mantras faz bem

Texto de Susan Moran, via Yoga Journal, tradução Nowmastê

Foto: Freestocks.org

Já se perguntou porque aquela cantoria de mantras de algumas aulas de Yoga trazem uma profunda sensação de paz? Quer saber, então preste atenção na Neurociência, pois é ela quem explica porque entoar mantras pode ser um ótimo acréscimo a sua prática de Yoga.

Foi buscando conforto espiritual que a musicista americana Tina Malia, após a faculdade, mudou-se para Fairfax, na Califórnia, e começou a participar de concertos de música sagrada. Havia algo no ritual de cantar mantras que a levava às lágrimas e a fazia voltar mais e mais vezes.

Em dado momento, ela começou a experimentar esse tipo de música por conta própria. E um belo dia, o amigo e músico Jai Uttal a convidou para cantar como backing vocal em sua banda – a Pagan Love Orchestra – que toca uma mistura de rock, reggae, jazz e música africana. Tina não pensou duas vezes antes de se jogar na oportunidade de tocar e cantar esses sons e letras sagrados – que muitos afirmam alterar o estado da mente, elevando a consciência.

“Eu amava as sílabas e a forma como elas saiam da minha boca, mas até então eu não tinha ideia do quanto precisaria delas, explica Tina. Mesmo tendo sucesso como musicista e cercada de amigos queridos, Tina estava silenciosamente se afundando em depressão – uma doenças com a qual ela vinha lidando desde a adolescência.

Aos vinte e poucos anos, se sentindo sozinha e solitária novamente, os pensamentos negativos eram constantes e ela chegou até a pensar em suicídio. “Era como se eu estivesse caindo em um abismo”, diz Tina, hoje com 40 anos. Nada a seu redor fazia a dor diminuir – comida, sexo, filmes, álcool, até os livros espirituais – lhe davam pouco mais de um breve e superficial conforto.

Jai Uttal percebendo a luta da amiga, lhe oferecer uma ferramenta que ele acreditou poderia ajudá-la a lidar com a depressão. Uma prática chamada “japa“, na qual um mantra é repetido (em silêncio ou não) enquanto o praticante conta com seus dedos as contas de um colar (o mala).

O mantra sugerido por Jai foi “Ram“, que pode ser interpretado por algo como “o fogo interior que queima todas as impurezas e karmas negativos”. Naquele momento, Tina conta, ela não entendeu completamente o significado do mantra, ela simplesmente  estava disposta a fazer qualquer coisa para se livrar do seu desespero.

Depois de quase duas semanas recitando silenciosamente “Ram” por vários minutos (às vezes, por horas) por dia, Tina começou a experimentar uma mudança em como ela se sentia.

Foto: Kristin Anderson

“A sensação era a de que um pequeno pontinho de luz – ou alívio – crescia e crescia com cada entoação”, ela explica. A medida que ela começou a separar o seu verdadeiro e profundo eu dos seus pensamentos, aos poucos ela foi parando de agir estimulada por aqueles que eram negativos. “Percebi que todos os sentimentos de insuficiência, solidão e falta de propósito no mundo eram apenas pensamentos”, ela diz. “Quando eu ofereci à minha mente outra opção de foco, algo além dos pensamentos, eu finalmente pude descansar”. Depois de seis meses de práticas diárias, Tina conta que ela começou a se conectar com uma profunda alegria dentro de si mesma. “De forma bem simplificada, o mantra me deu novamente a disposição de viver”, explica Tina.

Os efeitos neurológicos dos mantras no seu cérebro

Em sua prática, Tina tocou de leve aquilo que os yogis, há milhares de anos sabem: os mantra, sejam cantados, sussurrados ou recitados silenciosamente são uma poderosa ferramenta de meditação. Recentemente, a ciência ocidental começou a provar isso.

Neurocientistas aparelhados com os poderosos equipamentos de imagem cerebral da atualidade estão quantificando e confirmando alguns dos benefícios dessa prática ancestral – a meditação. Entre eles está a sua capacidade de acalmar o sistema nervoso, liberando a mente daquele constante barulho de fundo. Em um estudo recente publicado no Journal of Cognitive Enhancement, pesquisadores da Universidade de Linkoping na Suécia, mediram as atividades de uma região do cérebro chamada de Default Mode Network (DMN) – uma espécie de stand-by cerebral, uma área que permanece ativa em momentos de auto-reflexão e divagação – para determinar como a prática de mantras afeta o cérebro. Do ponto de vista da saúde mental, uma DMN hiperativa pode significar que o cérebro está distraído, mas não mais calmo ou centrado.

Os pesquisadores pediram aos indivíduos da pesquisa que participassem de um curso de duas semanas de Kundalini Yoga, com seis aulas de 90 minutos cada. As sessões de Kundalini começavam com exercícios de Yoga (Posturas e Respiração) e terminava com uma meditação de 11 minutos com mantra. Enquanto colocavam as mãos no coração, os participantes recitavam o mantra Sat Nam (que pode ser traduzido por “Identidade Verdadeira”).

Os mesmos indivíduos também realizaram uma atividade de controle onde batiam os dedos lentamente em um teclado com 4 botões.

O resultado do estudo mostrou que a DMN dos participantes estava mais suprimida durante a meditação com mantra do que durante o exercício no teclado – e essa redução de atividade aumentou a medida que o treino com mantras evoluiu. “Este estudo sugere que a prática da meditação com mantras pode reduzir de maneira mais eficiente as distrações relacionadas a essa área do cérebro do que simplesmente batucar seguindo um ritmo”, afirma Rozalyn Simon, PhD e autora do estudo.

Resultados como este não provam que cantar mantras é uma técnica que salva vidas, mas como Tina viveu na pele, quando estamos aprisionados por um discurso mental podemos facilmente ser levados a um caminho de negatividade que nos afasta da natureza relaxada do nosso eu verdadeiro. E as pesquisas sugerem que, não importa se você recita um mantra ancestral em Sânscrito como Sat Nam ou o Pai Nosso ou qualquer outro som ou frase, desde que você repita este som com a sua mente focada, você obterá os resultados.

Desde os anos 70, Herbert Benson, professor de medicina da Faculdade de Medicina de Harvard e fundador do Benson-Henry Institute for Mind Body Medicine no Massachusetts General Hospital, tem pesquisado como meditação e oração pode alterar estados físico e mental. Ele se interessou especialmente por aquilo que nos traz para um estado meditativo, o que chamou de “a resposta de relaxamento”. Ele fez experimentos com indivíduos repetindo mantras em Sânscrito e também palavras sem sentido religioso, como “um”; e descobriu que, independentemente daquilo que o praticante repete, o efeito é praticamente o mesmo: relaxamento e a habilidade de lidar melhor com os fatores de estresse inesperados que a vida nos traz.

Mais recentemente, cientistas em diversas universidades e institutos têm testado equipamentos de imagem cerebral e chegado a resultados semelhantes aos de Benson. Em um estudo de 2015, em Israel, pesquisadores descobriram que pessoas que repetem silenciosamente a palavra echad (um em hebraico) experimentam um apaziguamento da mente, em especialmente uma redução na atividade daquela região do cérebro, a DMN. “Quando as pessoas repetem ‘um, um um…’ tudo o que estava ativo no estado de descanso na DMN é desligado”, explica Aviva Berkovich-Ohana, neurocientista do Departamento de Educação da Universidade de Haifa. “Elas descrevem sentir ruma sensação de relaxamento e uma menor frequência de pensamentos.”

As raízes do mantra – história e significado

Para entender como o mantra funciona, pode ser útil entender sua tradução. A palavra mantra vem de duas palavras em Sânscrito – manas (mente) e tra (ferramenta). Literalmente, mantra significa “uma ferramenta para a mente”. Ele foi projetado para ajudar seus praticantes a acessarem níveis mais elevados de suas naturezas. “O mantra é uma vibração sonora através da qual nós focamos com consciência nos nossos pensamentos, nas nossas emoções, e nas nossas mais altas intenções”, explica o músico Girish, autor de Music and Mantras: The Yoga of Mindful Singing for Health, Happiness, Peace & Prosperity. “Com o tempo, a vibração entra mais e mais profundamente na consciência, nos ajudando a, eventualmente, sentir a sua presença como shakti – uma sutil e poderosa força que trabalha dentro de cada um de nós e nos leva a estados de atenção mais profundos”, confirma Sally Kempton, professora de meditação e autora de Meditation for the Love of It: Enjoying Your Own Deepest Experience.

Um dos mantras mais recitados universalmente é a sílaba “aum” – considerada o som da criação do universo. Acredita-se que Aum (normalmente escrito Om) contém todas as vibração que existiram, existem e existirão em todo o universo. Ela é também a raiz energética de outros mantras mais longos, incluindo Om namah shivaya (Eu me inclino perante Shiva – sendo Shiva o eu interior ou a verdadeira realidade), e Om mani padme (que essencialmente significa “a joia de lótus”, e tem sido interpretado como “praticando um caminho que une sabedoria e método é possível transformar-se no corpo, fala e mente de Buda).

Estes mantras hindus mais populares são em sânscrito, mas o mantra tem raízes profundas em todas as grandes tradições espirituais e pode ser encontrado em diversos idiomas, incluindo o hindi, o hebraico, o latin e o inglês. Por exemplo, um dos mantras populares no Cristianismo é simplesmente o nome Jesus, em quanto no Catolicismo comumente se repete a Ave Maria. Muitos judeus recitam Barukh atah Adonai (“Abençoado é o Senhor”); enquanto muçulmanos repetem o nome de Alá como um mantra.

Como iniciar uma prática de mantra

Então, como eu acho um mantra pra mim? Em algumas práticas, como na Meditação Transcendental, os estudantes tem um líder ou professor com experiência e com ele aprendem mantras específicos e personalizados. Mas há também várias outras maneiras de praticar de forma independente e sem custo.

Não importa qual mantra você escolher, a chave é a constância, explica Sally. “Você aperfeiçoa um mantra através de uma prática regular durante um período – meses ou até anos”, diz ela. “É mais ou menos como esfregar dois gravetos para fazer fogo. A fricção das sílabas dentro da sua consciência, o foco em trazer você para o mantra repetidas vezes e, especialmente, a atenção que você coloca na sensação que aquele mantra provoca na sua consciência vão, eventualmente, abrir a energia do mantra, e ele deixará de ser apenas palavras para se tornar uma energia que você vai sentir vibrar no seu interior”.

Se você tem o interesse de incorporar práticas de mantra na sua rotina de Yoga e meditação, comece perguntando ao seu professor se ele tem algum para sugerir.

Confira aqui uma lista com 10 mantras que inspiram quem nos inspira.

Em geral, recomenda-se você começar deitado ou sentado em uma posição confortável e, silenciosamente, repetir o mantra uma vez na inalação e outra na exalação. A sua postura deve ser suave também na face. Você perceberá que ela está tensa quando notar que as sobrancelhas estão franzidas. Quando pensamentos e sensações entrarem na sua mente, apenas note-os e volte a silenciosamente a recitar o mantra. Veja se você consegue separar 10 ou 20 minutos de prática por dia. Algumas tradições sugerem que você permaneça com o mesmo mantra por vários meses antes de trocá-lo por outro, a ideia é que você aprofunde a sua prática e cultive uma sensação de presença e paz.

“Para um praticante iniciante ou intermediário é importante não assumir que você tem o poder de se aperfeiçoar em um mantra apenas com a força do pensamento ou da atenção”, diz Sally. “Você deve praticar, a maioria das vezes por muito tempo, até que um mantra se abra pra você”.

Hoje, depois de muitos anos praticando, Tina, que tem certeza que o mantra Ram salvou sua vida, já experimentou uma conexão mais profunda com ele, “é como se os mantras se tornassem seus amigos, ou amantes”, ela explica. Viajando o mundo tocando música de devoção em festivais de Yoga ela compartilha o seu amor pelos mantras e poder de cura que eles trazem. “Às vezes, eu gostaria de subir ao topo de um prédio e gritar para o mundo ouvir: mantra é gratuito, não tem efeito colateral, é simples e fácil!”

Texto original aqui – https://www.yogajournal.com/yoga-101/mantras-101-the-science-behind-finding-your-mantra-and-how-to-practice-it

Um Comentário

  1. gostei muito do texto ! Ele é simples e reflexivo. Parabéns por ajudar as pessoas.
    Yedda.

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