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A água como cura da alma

A água como cura da alma

Juliana Marinho Pires

No meu despertar para os oceanos e a conexão com minhas águas – internas e externas – me deparei com um projeto, o Oceans and Flow (@oceansandflow). Ao começar na terra e desembocar na água, são retiros e encontros que provocam a conexão dos participantes com a sacralidade da água de diversas maneiras, e extrai o melhor de cada um para a vida. 

São viagens aquáticas de dias, às vezes semanas, geralmente em ilhas, inspiradas na cultura do movimento aquático. “Nós acreditamos que o poder da natureza e a presença em lugares inspiradores venham a mudar vidas. Usamos a dança e o contato com a água para alinhar nossos propósitos e ganhar mais confiança ao conhecer locais e pessoas autênticas”, resume bem a idealizadora do projeto, a portuguesa Violeta Lapa. Conheci Violeta nessas andanças dela por ilhas e pela busca intensa pela água e pessoas ligadas a ela. Há pouco mais de quatro anos, Violeta nem sabia nadar. Foi uma experiência transcendental de vivências na Tailândia que a fez não só fluir dentro d’água, como também crescer uma enorme vontade de passar a mensagem das águas adiante. 

Já se vão sete edições do Oceans and Flow com 98 participantes de 27 países. Lá fui eu embarcar nessa aventura, que me faria entrar definitivamente para esse mundo aquático: Oceans and Flow Açores. 

Rumo ao desconhecido

Recebi o convite do projeto e da Visitazores (@visitazores) para sair de Fernando de Noronha, onde moro, e embarcar nessa viagem em um lugar que nunca havia imaginado conhecer. Não tive dúvidas nem por um momento: de ilha para ilha, apenas fui e me permiti viver. O melhor é que naturalmente não fiz expectativas. Açores é um arquipélago com nove ilhas, uma região autônoma de Portugal (fica a 1640km do continente português), com uma população total de 250.000 habitantes. 

Cheguei na ilha principal – São Miguel – e me deparei com um aeroporto enorme para os meus parâmetros: 26 vôos diários contra 4 que aterrissam em Noronha. Em uma casa de campo com outras mulheres, todas de países diferentes, pude compartilhar histórias de vida, fazer amizades e me reconectar ao meu corpo e a minha paz interior. Quase todas chegamos muito cansadas do nosso dia-a-dia, do uso frenético dos nossos celulares, de coisas que não dissemos nem fizemos antes de partir, de e-mails e directs que não respondemos. 

Ao longo de todos esses dias incríveis que passamos juntas, dormimos muito – olha, como eu precisava!, nos alimentamos com cardápio vegetariano original e variado dos chefs locais Gualter Rainha (@gualterandraderainha) e o Jorge Cordeiro, além de sermos acompanhadas pelo artista audiovisual Gustavo Neves (@peregrinus.studio), que registrou de maneira poética e reservada nossas experiências e descobertas. Os “estranhos no ninho” se disponibilizaram de maneira muito querida e sensível nessa missão de nos cuidar. Estivemos verdadeiramente unidas em irmandade, sendo a natureza e as águas – de piscinas aquecidas, do mar, de lagoas, salgadas e doces – a fonte soberana de nutrição. Me senti alimentada, acolhida, compreendida e completamente desconectada de tudo o que não importava naqueles momentos, e conectada a essa força maior que também está dentro de mim.

O estado de conexão com a natureza que alcançamos nesses dias me permitiu estar completamente presente no que estava fazendo. Créditos: Aurelie Chauleur

“São práticas que nos religam à natureza e naturalmente nos religa a nós, e assim vem muita inspiração, a água tem essa capacidade. Faz-nos lembrar de coisas, emergir nossos talentos, é um ser vivo. Além disso, é muito misteriosa, poucas pessoas têm acesso a essa informação”, constata Violeta. Quem diz que o ser humano é essencialmente terrestre talvez tenha esquecido que passou seus primeiros nove meses imerso em água. 

Somos aquáticos por natureza e o que desejava naqueles dias era resgatar a água como condutor para a nossa transformação em todos os aspectos – física, emocional, espiritual. Um desejo que se tornou muito real naqueles dias de natureza suntuosa, meditações profundas e entrega para a água. Senti como se estivesse fazendo um acordo com ela: te reconheço como ser sagrado, milenar e transcendente e você me abre as portas para a interação pura e plena com sua sutileza divina.

Ali verdadeiramente tive contato com a energia mais visceral da água, e me conectei inclusive com sua parte sofrida. Sofre com seu mau uso, com a poluição que destrói e envenena e a falta de reconhecimento de que ela e nós – seres humanos – somos um com o todo. Enquanto a humanidade se descola da natureza e se coloca em outra esfera – superior, teremos muitas dificuldades de nos olhar com compaixão, e nos cuidarmos uns aos outros, e do que está a nossa volta. “A grande maioria de nós está muito longe, desconectado dos oceanos, e não desfruta dessa maravilha. Percebi que realmente há uma grande distância física da água, dos oceanos. Não só física como também emocional. Nós vemos pela questão dos plásticos, do consumo plástico”, arremata a portuguesa. E não é que é mesmo?

Foto: Aurelie Chauleur

Termas da Ferraria

Meu lugar predileto nos Açores foi uma região na capital São Miguel chamada Ferraria, no quintal da casa da nossa tribo aquática. Entre montanhas e estradas sinuosas, chegamos a esse PRÉDIO antigo, que recebe, do lado de fora e de dentro, piscinas alimentadas com água do mar, que fica logo em frente. Há uma piscina natural na Ferraría, que, na maré baixa, é aquecida naturalmente pelo enxofre que sai das rochas. 

Lá, recebi minha primeira sessão individual de terapia aquática. Shira Foyst  (@shira_watertherapy), uma israelense incrível que dedica a vida a terapias aquáticas, me conduziu nessa jornada – sem volta – para o mundo das novas sensações e a entrega total do controle, como nunca tinha feito antes na minha vida. Parece que me preparei por décadas para me permitir estar ali, naquele tempo e espaço, para vivenciar essa experiência. 

Termas da Ferraría, com piscinas de água quente vindas do próprio mar, cenário principal e soberano dessa paisagem.

Com movimentos suaves, porém profundos, fui conduzida dentro da água sem resistência. Fiz uma ligação direta com várias emoções e lembranças. Lembranças de coisas que nem sabia ter vivido. Na verdade, estou tentando aqui descrever em palavras o indescritível. Um mês depois, de volta a minha ilha, como combinado com o universo, o terapeuta aquático Mauricio Castillo (@mayo.castillo) chega por essas bandas, e faço uma formação intensiva. Além da transcendência de receber, queria poder ser o canal para que outras pessoas entrassem nesse portal também. Agora pertenço, definitivamente, a tribo aquática e a essa ainda tão enigmática cultura do movimento aquático. Me sinto desbravando algo novo, e ao mesmo tempo, ancião.

Aqui um pequeno fragmento da sessão de terapia aquática que recebi de Shira:

Freediving

Cada edição do Oceans and Flow um tema do mundo aquático é escolhido para ser trabalhado. Na edição dos Açores, Leina Sato (@leinasato), especialista em freediving e interação com espécies marinhas – como golfinhos e baleias, nos ofereceu aulas que me desafiaram demais. A técnica de freediving passa por descer, no fundo do mar, por meio do controle da respiração, o máximo de metros que conseguir, em apneia, e voltar a superfície em segurança. 

A brasileira Karol Meyer, freediver profissional e recordista mundial, já permaneceu 18 minutos e 32 segundos em apneia numa piscina. No mar, chegou a descer 121 metros com o mesmo ar nos pulmões. E claro, subiu em segurança.

Não foi nada fácil. Controlar a respiração em um estado eminente de tensão me deixou muito alerta e me colocou em contato com minhas limitações, meus medos. Para Leina, o exercício é exatamente esse: sentir que quanto mais calmos e livres, mais conseguimos nos manter embaixo d’água. É uma verdadeira experiência de controle emocional, há quem entoe mantras mentalmente enquanto desce. Uma corda presa a um peso nos ajuda na missão. Treinamos primeiro na piscina. Senti que dei o melhor que pude, embora a preocupação em quanto eu conseguiria descer me impedisse de fluir. Quem sabe um dia eu chegue lá? Aprendi, aí, ainda, muito sobre disciplina e superação. Nunca sairá da minha memória o azul do mar dos Açores, um azul profundo e transparente, único.

Logo depois dessa semana intensa, de onde saí energizada, inspirada e feliz, entrei de cabeça em outro projeto: a Expedição Atlantis, uma ventura de oito dias num veleiro em busca de baleias, golfinhos e outros seres marinhos. Mas esse é outro capítulo dessa história. 

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