8 símbolos auspiciosos do Budismo Tibetano

Por Tiffani Gyatso*

No budismo, os oito símbolos auspiciosos representam as oferendas que os deuses fizeram à Buda Sakyamuni assim que ele atingiu a iluminação. Brahma, o deus de toda criação, com quatro cabeças e amarelo em cor, foi o primeiro à vir e oferecer uma roda dourada com mil hastes, pedindo à Buda que ele fizesse a roda do dharma girar, passando seus ensinamentos. Depois apareceu Indra, o deus branco do céu, apresentando uma concha branca, representando a proclamação do dharma. A deusa da Terra Sthavara (Tib. Sayi Lhamo), que nasceu ao testemunhar a iluminação do Buda, lhe presenteou com um vaso com o néctar da imortalidade. Iconograficamente, em algumas representações, Brahma e Indra estão ao lado do trono, oferecendo ao Buda a Roda e a Concha.

Antigamente a imagem do Buda não era representado por uma figura humana, mas apenas por símbolos, o mais comum era pela figura de seus pés, onde na sola havia muitos outros símbolos representando suas qualidades de iluminação. Outra representação de Buda, era um trono vazio, a árvore Bodhi, ou a própria roda do dharma. Alterações dos mesmos símbolos também existem no Hinduísmo e no Janaísmo.

Os Oito Símbolos Auspiciosos são os símbolos mais populares no budismo tibetano. Eles são usados durante eventos grandes como ensinamentos, exibidos na entrada de templo em tecidos esticados, ou em tecidos nas portas, desenhados com giz no chão para receber os mestres e em toda a decoração de objetos, templos e altares. Eles tem a função de estarem presentes em todo espaço sagrado, para nos lembrarmos das qualidades do Buda e do dharma.

Os Oito Simbolos Auspiciosos podem ser representados separadamente, em um conjunto de pares, de quatro ou oito. Os Oitos símbolos são os seguintes:

1. A Flor de Lótus
2. A Roda do Dharma
3. O banner da vitória
4. O Nó sem fim
5. Um par de peixes dourados
6. O Vaso de tesouros
7. Um precioso guarda-sol
8. Uma Concha branca

Desenho dos Oito Simbolos Auspiciosos juntos: Tiffani Gyatso
Desenho dos Oito Simbolos Auspiciosos individual: Robert Beer do livro, “Encyclopedia of Tibetan Symbols and Motifs”.

Concha

A concha branca, com sua espiral sentido horário simboliza o som melodioso do dharma que alcança distancias longínquas, que os praticantes com seu coração aberto, dispostos a receber o chamado, o escutam de longe e são guiados para a fonte, motivando-os também a trazer beneficio à todos os seres.

Guarda-sol

Assim como o usamos para nos proteger do sol, do calor, da desidratação do corpo, ele simboliza a proteção dos sofrimentos que nos enfraquecem. Antigamente a quantidade de guarda-sóis usados nas passeatas dos reis na Índia e no Tibete, simbolizava seu ‘ranque’, ou seja, a importância de sua existência e dos princípios do monarca. O guarda-sol foi oferecido para Buda pelo rei dos Nagas – seres míticos, humanos metade serpentes e guardiões de tesouros. É um reconhecimento de nobreza e respeito. O eixo do guarda-sol, visualmente nos dá uma direção de centralidade, representando quem estiver debaixo dele, é o centro simbólico do universo – uma representação da essência iluminada, intocada pelos devaneios e obscuridades de samsara. Isso também remete à proteção que o próprio Buda nos dá, como se ele mesmo fosse nosso guarda-sol quando tomamos refugio nele.

Casal de peixes

No budismo, o oceano é um termo usado para indicar o ‘oceano de samsara’ onde nós flutuamos e nadamos de um lado para o outro, e o peixe nesse contexto, são seres que se movem livres e ágeis na água sem se afogarem, destemidos e alegres representam felicidade plena e espontaneidade, abundância e fertilidade por também se reproduzirem com facilidade. Na China, um casal de peixes é dado de presente ao casal, também como símbolo de fidelidade e união. Como na China, o peixe também foi muito abundante e principal alimento, representa a prosperidade material. O casal de peixes tem semelhança em seu significado no hinduísmo, jainismo e outras tradições do budismo, assim também como no antigo Egito e no cristianismo era o símbolo do próprio filho de Deus, “o pescador”.

Vaso de tesouros

O vaso nos remete ao formato do ventre, de onde toda criação brota. Esse é um vaso de tesouros dos deuses e do néctar infindável da imortalidade. Representando que o próprio corpo espiritual do Buda, vai além de vida e morte. Quando se transcende samsara, não ha morte e nem renascimento, quando você sai do ciclo, você atinge a real imortalidade, que não quer dizer vida eterna, mas muito mais que isso – é o próprio nirvana, quando o iluminado dissolve conscientemente o corpo, mente e emoções na consciência universal, atemporal e vasta. Em termos mais populares, simboliza longa vida e saúde.
O vaso também vem como símbolo da generosidade que os ensinamentos do Buda se apresentam, o qual nos abre acesso à esse néctar, à esse grande tesouro além da vida e da morte.
O vaso também é usado nos templos para purificação, quando em cerimônias, é borrifado água do vaso sobre os objetos do altar e em vezes no público.

Nó sem fim

O nó sem fim é uma forma geométrica que se curva em um ou vários nós sem começo e sem fim, em uma eterna continuidade. Assim como samsara, quando algo é resolvido, algo novo surge, sempre há algo que se antecede, ninguém sabe o começo e ninguém sabe como será o fim, sendo que no budismo, ha renascimento depois da morte. Mas ele também simboliza a sabedoria infinita de Buda, também sem começo e sem fim, apenas existente e presente. É um lembrete do tempo não linear e sim curvo e cíclico.

A Roda

A roda, assim como a ideia do Nó sem Fim, também remete aos ensinamentos de Buda, que giram e dão inicio à uma engrenagem que carrega um veiculo que leva à iluminação. A roda é o que faz andar, se movimentar, se inovar e por isso é o símbolo principal do dharma – os ensinamentos do Buda, ou a Verdade, de um ponto de vista de analise e experiência direta das realidades. Normalmente ela é representada com oito haste, indicando o Caminho dos Oito passos: :::::::

Na maioria das vezes, quando a roda é representada sozinha, vemos um casal de veados, um em cada lado. Isso se refere ao local onde Buda deu seu primeiro sermão, ou como dizem “girou a roda do dharma” em Sarnath, no Parque dos Veados. Se diz, que quando ele ensinou até os animais vinham ouvi-lo receber suas bênçãos, tão doce e profundo eram suas palavras e sua aura. Hoje nos mosteiros que tem a obra completa do Kangyur (ensinamentos de Buda) e Tengyur (comentários) em sua biblioteca, terão a roda com o casal de veados no telhado do templo.

A Flor de Lótus

A flor de lótus tem um significado muito importante e profundo no budismo e em outras crenças. É um flor linda e que surge dos pântanos. Ou seja, mesmo se um buda surge no meio das turbulências mundanas, ele mantem intacto e puro a sua essência iluminada. A ideia é que todos nós possamos atingir o nascimento em um lótus. Significando, o germinar de uma mente pura, mesmo se ligada ao samsara. O lótus também significa renúncia, pois renuncia o solo, o mundo e prevalece suspensa sobre a superfície do pântano.

O Banner da Vitória

O Banner simboliza a vitória de Buda sobre Mara, o senhor das Ilusões. No budismo, se explica que toda experiência no mundo, vem de um entendimento pessoal da realidade, ou seja, cada pessoa irá experiênciar o mesmo objeto, de forma diferente, pessoal. Esse significado que damos às experiências e objetos, são ilusões, pois não são a realidade absoluta do objeto. Quando entendemos que todo objeto é vazio de significado até o momento em que criamos um, nos libertamos da crença de uma ilusão que criamos e que seguimos como verdades. Essa é a vitória libertadora dessa compreensão, uma vitória sobre todas as características que vivemos em base de ilusões: os desejos, a ignorância e a aversão.

tiffani

*Tiffani Hollack Gyatso nasceu em São Paulo, Brasil em 1981. Passou sua infância vivendo em uma comunidade no interior do estado, fundada pelos seus pais. Durante a adolescência viajou pelo mundo: viveu em um veleiro e depois foi viver com os aborígines no deserto da Austrália. No ano de 2000 viajou de motorhome da Alemanha até a Mongólia, atravessando por todo o sul da Rússia. Na Mongólia foi onde descobriu a arte sacra do budismo tibetano: Thangka. Determinada a estudar tal arte, ela voltou para a Alemanha onde estudou e trabalhou com designer gráfico por três anos antes de se mudar para Índia. Lá ela foi aceita como a primeira ocidental no Instituto Norbulingka, fundada por S.S. o Dalai Lama e estudou por três anos arte sacra e também apoiou a área de print design do Instituto.

Em 2006,  Tiffani retornou ao Brasil onde teve seu filho com seu companheiro tibetano. No fim de 2007, foi convidada a trabalhar no templo budista Caminho do Meio fundado por Lama Padma Samten (www.cebb.org.br) em Viamão, RS. Deu iniciou a um treinamento de uma equipe e pintou os murais do templo de 400m2. No fim de 2012, o projeto foi finalizado.

 Desde que retornou da Índia, em 2006, Tiffani  leciona Thangka e realizou workshops em várias cidades como São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e Brasília e no Chile.

Visite seu site e fique por dentro da agenda de retiros e workshops: http://www.tiffanigyatso.com/

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